Páginas

terça-feira, 14 de dezembro de 2010

Cantiga do negro do batelão (José Craveirinha)

Se me visses morrer
Os milhões de vezes que nasci...
Se me visses chorar
Os milhões de vezes que te riste...
Se me visses gritar
Os milhões de vezes que me calei
Se me visses cantar
Os milhões de vezes que morri
E sangrei
Digo-te, irmão
Também tu
Havias de nascer
Havias de chorar
Havias de cantar
Havias de gritar
Havias de morrer
E sangrar...
Milhões de vezes como eu o fiz

segunda-feira, 15 de novembro de 2010

O meu Natal


A cada ano que passa e eu vejo a minha cidade sendo enfeitada para o Natal, sinto-me um vitorioso! Lá se vão cinco anos depois que eu me descobri doente, e cada Natal a mais que me é permitido viver é como se fosse um presente. Difícil ter que viver com a incerteza e o sofrimento de não poder visualizar um futuro mais distante. Sei que peco por não escrever mais, sei que muitos tem acompanhado a minha caminhada que tem servido de exemplo de força e luta para outras pessoas.

Confesso que não sou tão forte assim. Luto como qualquer outra pessoa lutaria, tenho os meus momentos de incertezas e de angústia. Procuro fugir deles me dedicando a alguma atividade que me mantenha ocupado e com o pensamento voltado para ela.

Vou ao médico amanhã. As visitas ao doutor são sempre muito difíceis de encarar. Ainda não abri os resultados dos exames. Nem preciso. Sei qual será o resultado, só não sei qual o estágio da doença. Minha urina aos poucos volta a sangrar. Não quero este ano ter um Natal vermelho. Gostaria que ele fosse puro e branco como a neve, mas infelizmente nem sempre temos os nossos desejos cumpridos.


Mas é Natal novamente, e as pessoas começam os preparativos para virada do ano. Dizem que o mundo acabará em 2012. Na verdade, para muitas pessoas o mundo vai acabar nesse ano. Se eu conseguir chegar vivo outra vez à virada do ano de 2011 para 2012, com certeza será mais uma vitória e mais uma conquista .